História

Tabaco – “pó e fumo em ouro e prata se convertem”.

I – O negócio do fumo

No século XIX, o tabaco era uma das indústrias mais relevantes do país, gerando enormes lucros para os empresários. Contudo, os operários tabaqueiros, apelidados de “escravos brancos“, viviam na miséria. Em fábricas como a de Xabregas, trabalhavam até 15 horas diárias num ambiente insalubre, sujeitos a castigos físicos e à humilhante “apalpação” à saída. O trabalho infantil era comum e o pó do tabaco causava graves doenças pulmonares. A liberalização do setor, em 1865, aumentou a produção, mas não melhorou os salários. Um breve período de gestão pública (régie) sob Oliveira Martins trouxe melhorias temporárias, mas a indústria regressou rapidamente ao controlo privado.

II – O operariado organiza-se

Após a instauração do regime liberal em 1834, surgiram os primeiros organismos representativos dos trabalhadores sob a forma de associações de socorros mútuos. O Centro Promotor (1852) combateu o analfabetismo, embora fosse influenciado pela burguesia. Em 1872, nasceu a Fraternidade Operária, ligada à Associação Internacional dos Trabalhadores, num clima agitado pela Comuna de Paris e pelas ideias de Marx. Este período viu o primeiro grande surto grevista no país, com os tabaqueiros a assumirem um papel de destaque na solidariedade de classe. Apesar do elevado analfabetismo, esta “elite operária” organizou-se politicamente, contribuindo para a fundação do Partido Socialista em 1875 e para o despertar da consciência operária.

III – Nasce A Voz do Operário

Em 1879, face à recusa da imprensa em divulgar os problemas dos trabalhadores, o operário Custódio Gomes propôs a criação de um jornal próprio. Sob a liderança de Custódio Braz Pacheco, nasceu “A Voz do Operário”, focado na instrução e defesa da classe. Em 1883, fundou-se a Sociedade Cooperativa, a fim de sustentar o jornal, expandindo a sua ação para a previdência social, com a “ambulância fúnebre”, que assegurava funerais dignos aos sócios.

O compromisso com a educação materializou-se com a abertura da biblioteca em 1888 e da primeira escola masculina, em 1891. A instituição consolidou-se então como Sociedade de Instrução e Beneficência, combatendo a ignorância e promovendo a solidariedade de classe.

IV – Sob a República 

A implantação da República em 1910 foi saudada com esperança, mas o entusiasmo inicial deu lugar a tensões e greves reprimidas. Durante a Primeira Guerra Mundial, o operariado sofreu com a inflação galopante e a escassez de alimentos. A Voz do Operário enfrentou tempos críticos, agravados pela gripe pneumónica de 1918, que sobrecarregou os serviços funerários. Apesar das crises, este período foi de grande edificação: lançou-se a primeira pedra da sede monumental desenhada por Norte Júnior (1912) e inaugurou-se a primeira fase do edifício em 1922. A associação continuou a crescer, alargando as respostas sociais para os operários, incluindo a policlínica, a cantina escolar e a assistência à maternidade com a oferta de enxovais.

V – Tempos difíceis

Com o golpe de 1926 e o advento do Estado Novo, a Sociedade viveu décadas sob a censura e a ditadura. Em 1929, foi aprovado um programa pedagógico inovador de “educação integral”, focado no desenvolvimento intelectual, físico e moral dos alunos. A implantação do fascismo em Portugal e a Segunda Guerra Mundial, para além da repressão política e social, trouxeram graves dificuldades financeiras e uma quebra no número de sócios, afetados pela inflação e pelo racionamento.

Mesmo assim, a instituição manteve o seu labor, inaugurando o Museu do Trabalho (1945) e bibliotecas infantis. O Salão de Festas tornou-se um palco de cultura e de raras manifestações da oposição democrática e antifascitas, como os comícios de Norton de Matos e as atividades do MUD, preservando a chama da resistência.

VI – Em Democracia

A Revolução de 25 de Abril de 1974 permitiu o fim das ingerências e repressões na gestão da instituição. A Sociedade adaptou-se aos novos tempos. As Escolas d’ A Voz do Operário tornaram-se referência ao adotar um método pedagógico inspirado nos princípios e práticas do Movimento da Escola Moderna, focado na autonomia e cooperação dos alunos. Registada como IPSS em 1985, a instituição alargou a sua intervenção à creche, ao apoio domiciliário e a atividades desportivas e culturais diversificadas. Hoje, A Voz do Operário, sendo muito mais do que uma escola, mantém-se como um espaço de educação de qualidade e um pilar de solidariedade social na Área Metropolitana de Lisboa.